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O RABINO DOS 500.000 LEITORES
REVISTA VEJA - PERFIL - 17/MAI/1995
OKKY DE SOUZA
Com jeito de garotão, Nilton Bonder
prega o judaísmo e se torna o novo fenômeno dos livros
de auto-ajuda
Que Lair Ribeiro, que nada. Muito menos
Paulo Coelho ou a caçadora de anjos Monica Buonfiglio. O
super-herói do momento na área dos livros de auto-ajuda
é Nilton Bonder, um gaúcho criado no Rio de Janeiro
que há duas semanas bateu a marca de meio milhão de
exemplares vendidos dos oito livros que lançou até
agora. Apesar disso, fora seus leitores, pouca gente o conhece.
Isso porque Bonder não é do tipo que cava espaço
na TV ou contrata assessores para alardear seus poderes. Bonder
é rabino, ordenado pelo Jewish Theological Seminary de Nova
York, e sua forma de ajudar os leitores sequiosos de uma palavra
amiga é resgatar os ensinamentos da tradição
judaica, traduzindo-os numa linguagem mais acessível aos
cidadãos de hoje, de qualquer credo.
Com essa receita, apenas de seu segundo
lançamento, A Cabala do Dinheiro, Nilton Bonder vendeu 250
000 exemplares. O livro faz parte de uma trilogia que se completa
com A Cabala da Comida e A Cabala da Inveja - este último
devorado pelo ex-presidente Femando Collor durante a fase pré-impeachment.
O termo "cabala", nesse caso, não tem conotação
mágica. Ele significa "recebimento" e designa a
forma como os judeus interpretam os textos sagrados, extraindo lições
das entrelinhas. Dinheiro, comida e inveja: eis aí três
assuntos do cotidiano de qualquer mortal fartamente explorados pelos
manuais de autoajuda. Na trilogia de Bonder, no entanto, não
há fórmulas para ganhar dinheiro fácil, emagrecer
sem sacrifícios ou afastar maus olhados. Com um texto macio,
recheado de historinhas saborosas, o autor apenas induz o leitor
a refletir sobre esses temas a partir dos ensinamentos do judaísmo.
"Quando alguém me pergunta como ficar rico, proponho
à pessoa repensar o dinheiro", exemplifica o rabino.
Numa escala de qualidade literária
entre os lançamentos de auto-ajuda, as obras de Bonder situam-se
acima das dos demais autores de sucesso do gênero. Tanto assim
que, para escrever o prefácio de seus livros, ele costuma
seduzir a pena de autores de prestígio. O poeta e tradutor
Haroldo de Campos, por exemplo, assina o de A Cabala da Inveja.
"Muito nos ensina este livro que, na tradição
midrashista das parábolas, das micronarrativas aforismáticas,
Nilton Bonder entreteceu para nosso comprazimento", escreve
Campos. É um elogio. Já no prefácio de A Cabala
da Comida, o escritor Moacyr Scliar descreve o livro como "encantador,
um banquete espiritual e intelectual raro".
Bonder também se ocupa de temas
inéditos no terreno da auto- ajuda. No livro O Crime Descompensa,
ele pretende levar o leitor a tomar posição diante
das discussões de caráter ético que hoje e
travam no país sobre temas como cidadania e violência
urbana
sempre à luz do judaísmo. Segundo o autor, o título
do livro serve para contrariar o ditado "o crime não
compensa". Para ele, o ditado carrega a noção
pervertida de que o crime só não vale a pena porque
não compensa. Há poucas semanas chegou às livrarias
do país o novo livro de Bonder, O Segredo Judaico de Resolução
de Problemas, uma espécie de resumo das idéias contidas
em suas obras anteriores. Nele, o rabino procura explicar a necessidade
de aprender a ver todos os ângulos de um problema, mesmo aqueles
que estão ocultos.
Nilton Bonder, como se nota, é
um rabino diferente, e não apenas por transformar a tradição
judaica em best-sellers. Seu perfil pessoal também está
longe daquele que se costuma imaginar quando se pensa num líder
espiritual descendente de Moisés. Para horror das correntes
mais ortodoxas do judaísmo, ele se veste, e se comporta nas
horas vagas, como um ipanemense em férias. Com 37 anos, aparentando
dez menos, pode ser visto na praia com uma prancha de surfe sob
o braço ou praticando tênis, natação
e Cooper. Milita em causas ecológicas ("rabino verde"
é um de seus apelidos) e representa oficialmente sua religião
na campanha contra a fome de Betinho. Nos recentes anúncios
da campanha na TV mostrando artistas como Gilberto Gil, Caetano
Veloso e Tom Jobim narrando parábolas sobre a cidadania,
os textos eram tirados de seus livros. Na Barra da Tijuca, onde
atua na única sinagoga do bairro, que ele próprio
construiu há um ano com dinheiro arrecadado entre a comunidade
judaica, é reconhecido e saudado nas ruas. A sinagoga, por
sinal, tem também toques inusitados de modemidade. O desenho
arquitetônico das colunatas internas é assinado por
Burle Marx - uma das últimas obras do artista, morto no ano
passado - e os detalhes de decoração levam a griffe
de Hélio Pellegrino Filho, um dos arquitetos da moda no Rio.
"Meu objetivo é popularizar
a tradição judaica da mesma forma que os hippies fizeram
nos anos 60 com as religiões orientais", compara Bonder,
que é casado pela segunda vez e tem dois filhos. "Procuro
encontrar uma ponte com a realidade das pessoas, em vez de ficar
trancado num quarto elucubrando sobre a religião", completa.
Tamanho entusiasmo, como se pode prever, faz de Bonder uma figura
polêmica entre seus colegas. "Admiro muito a energia
criativa do Nilton e seu não conformismo. Ele faz questão
de manter uma postura independente, e eu sei como isso pode ser
difícil para um rabino", diz Henry I. Sobel, presidente
do rabinato da Congregação Israelita Paulista. "Não
me preocupo em acompanhar o que Nilton faz, nunca li sua obra, ele
não pertence à minha linha", diz, encerrando
a conversa, o rabino Eliezer Stauberg, da sinagoga de Copacabana.
Em defesa de seu estilo pouco convencional,
Bonder explica que nada há de exótico na rotina do
templo que comanda. "O clima é informal, mas nossa liturgia
é extremamente tradicional e, entre as sinagogas não
ortodoxas do Rio, somos a única a praticar a oração
diária", ele diz. A vida de Bonder na sinagoga da Barra
não é fácil. Além de celebrar setenta
cerimônias como casamentos, enterros e bar mitzvah por ano,
ele atende a cada semana cerca de trinta pessoas que, aflitas pelos
mais variados motivos, buscam seus conselhos. Parte desses fiéis
é de doentes terminais, aterrorizados diante da morte. A
estes, Bonder invariavelmente faz uma ponderação filosófica
que costuma reconforta-los: o medo do desconhecido é uma
tolice, simplesmente porque não se conhece o desconhecido.
O que nos aflige é apenas a especulação humana
sobre o que vem depois da morte, e não vale a pena afligir-se
por simples especulações.
O rabino aprendeu lições
como essa depois de trabalhar com doentes terminais no Memorial
Sloane Kettering Hospital, em Nova York, uma das escalas de sua
formação nos Estados Unidos. Na verdade, Bonder aportou
naquele país, em 1981, como estudante de engenharia mecânica
na Universidade de Columbia. Formou-se, mas jamais pensou em exercer
a profissão.
Segundo ele, já naquela época estava determinado a
se tornar rabino, atividade que, nos dias de hoje, tem como pré-requisito
algum tipo de formação superior. A princípio,
a opção religiosa de Bonder causou certa estranheza
na família, mas seu pai, hoje engenheiro aposentado da Petrobrás,
ofereceu-se para ajudá-lo no que fosse possível.
O rabinato não é uma atividade
sacrificada do ponto de vista financeiro. Como contratado da sinagoga
da Barra, pago pela comunidade, Bonder ganha mais ou menos o que
ganharia se trabalhasse como engenheiro mecânico numa firma
de prestígio. É claro que, hoje, seu orçamento
é reforçado pela pequena montanha de dinheiro que
representam os direitos autorais sobre 500 000 livros vendidos.
"Desde pequeno eu gostava de ler os textos tradicionais judaicos,
mas sentia que eles se destinam ou aos velhos ou às crianças
- os jovens têm dificuldade em apreendê-los", diz
Bonder, que procura ocupar essa brecha à frente da sinagoga
e com seu livros.
Para tomar os ensinamentos religiosos
atraentes a qualquer leitor, Bonder lança mão de um
recurso simples inspirado na própria tradição
judaica: as parábolas. São essas pequenas historinhas,
sempre supreendentes, encaixadas a cada duas páginas, que
tomam os livros do rabino saborosos. Em O Crime Descompensa, por
exemplo, para ilustrar os perigos do individualismo, conta a história
de um homem que, viajando num barco, começou a fazer um buraco
embaixo de seu assento. Os outros passageiros, é claro, reclamaram.
Ele retrucou dizendo que ninguém ali tinha nada a ver com
isso, afinal, fazia o buraco embaixo do próprio assento.
Outra das histórias favoritas de Bonder: um homem morre e
é levado a conhecer o inferno. Lá chegando, encontra
um fabuloso banquete, mas os comensais apenas choram e ele logo
descobre por quê: seus cotovelos são virados ao contrário,
portanto eles não conseguem dobrar o braço e levar
a comida à boca. Depois, ao ser levado a conhecer o céu,
o homem encontra o mesmo banquete, mas desta vez os comensais riem
e se divertem. O visitante acha estranho, pois nota que eles também
têm os cotovelos ao contrário. Alguém lhe explica:
aqui. eles levam o alimento à boca uns dos outros.
Parece lição de moral, mas os leitores de Bonder adoram.
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